15 abril, 2006

Fisherman’s || Mar del Plata

Quis o destino que chegasse a Buenos Aires num dia de sol, quente e luminoso. Eu tinha lido o essencial e, dias antes, em Lisboa (na Casa da América Latina), apresentara um livro de Juan José Saer – um argentino de Paris – que me comovera o suficiente para passear pela pampa. O livro chamava-se As Nuvens e era a história de um médico e dos seus assistentes que percorriam a Argentina recolhendo loucos que deveriam tratar no seu hospício. Essa travessia mostrava um país de chuvas, planícies abandonadas ao silêncio, incêndios, cavaleiros solitários, generais perdidos e desenganados – eu gostei do retrato. Tenho um gosto especial pelas civilizações que sabem que estão perdidas ou, pelo menos, cujo tempo chegou ao fim. Num restaurante de Buenos Aires, não muito distante da Recoleta – um bonito bairro cheio de árvores, relvados, livrarias, restaurantes, cinema ao ar livre, alunos do Conservatório que dançam tango para os turistas – bebi uma Quilmes para festejar o crepúsculo. É uma cerveja simpática, clara. E fresca, com um final a saber a Quilmes, mas não mais. Só isso. Uma Quilmes. A noite continuou pela Recoleta até dar com um livreiro tardio que conhecia de literatura portuguesa o que um polícia das alfândegas não suspeita sobre a bagagem do viajante; de contrário, pagaríamos imposto. Fomos interrompidos por um casal de adolescentes que queria comprar o Kama Sutra. O bom livreiro quis saber de que edição se tratava – e desfiou uma erudição bibliofágica, com uma lista de seis versões que desanimou os jovens clientes, mais interessados em conhecer o «salto de corça» do que os rudimentos de filologia. «É para bem deles», explicou, murmurando que o «salto de corça», como posição, é de um arrebite desnecessário, coisa para exibicionistas. Compreendo-o, à medida que a idade vai passando. E fomos à cerveja. Ele era de Santa Clara del Mar, onde se produz a Fisherman’s, uma cerveja em três versões: negra, rubia e rojita. Infelizmente, não encontrei a rojita, mas o que bebi bastou para gostar da rubia, artesanal e límpida como o céu do Mar del Plata, ligeiramente dörtmunder. Se for bebida gelada, mal se sente escorregar pela garganta, descendo até onde se acomoda para nosso regalo. No copo é ligeiramente cremosa, a espuma volteia devagar até tingir de cristal o seu topo, não é exagerada na gaseificação, nem se perde em minudências: vai direita ao assunto, fria e pouco contemplativa. Não se pode querer muito mais quando o Verão chega ao hemisfério sul.

+MARCA: Fisherman’s (Rubia)
Origem: Argentina

Álcool: 5,2

Avaliação: ***