15 abril, 2006

Hobgoblin || A bebida do diabo

No mesmo telejornal que me mostrou a intenção do governo em limitar e proibir o fumo nos espaços públicos (o que eu acho bem – se bem que vá elaborando a minha lista negra de restaurantes e bares que não disponham de uma área de fumadores), foi apresentada uma reportagem sobre as implicações dietéticas da cerveja. Basicamente, descobriram agora que beber uma cerveja equivale a várias tropelias, coisa que os jornais e as televisões fazem cíclica e periodicamente, não só com a intenção de zelar pela nossa saúde, mas também para dizer que a cerveja é, bem vistas as coisas, «a bebida do diabo» e um mal para as várias economias nacionais. Felizmente, daqui a uns meses aparecerá uma notícia nos jornais, citada das agências, dizendo que o malte orgânico apresentado em certas cervejas é de excepcional valia para a saúde. Há coisa de um ano, durante uma peregrinação literária, integrado num grupo que recitava sonetos por várias cidades da Europa e ouvia comentários em línguas que desconhecia, parei num bar que se dedicava unicamente à «bebida do diabo». Já saciada a minha sede de bebidas da mittleuropa, checas e austro-húngaras, pedi uma Hobgoblin – produzida em Inglaterra, na lendária Whychwood, como se estivesse a precisar de mais açúcares no sangue. Em vez do açúcar chegou também um levíssimo aroma de malte com chocolate ou cacau, que até hoje não pude definir. A Hobgoblin deve beber-se mais devagar do que as cervejas tradicionais (pilsener ou qualquer lager); digamos que não perde qualidades à medida que vai ganhando temperatura – o seu coração, embora delicado e amoroso, permanece frio por muito tempo. Para este amplexo, pois, os preliminares são mais avantajados e carecem de paciência. Não se gosta dela ao primeiro olhar, se bem que a garrafa seja belíssima – depois da impressão de cacau ou chocolate (ainda não decidi o que chamar-lhe), vem um aroma de fruto e só depois o amargo dos cereais, crescendo do fundo do copo, como uma ameaça. É a ameaça do diabo, certamente, que nunca usa cacau nem chocolate mas sabe como se vai lá, ao sabor.

+MARCA: Hobgoblin
Origem: Inglaterra
Álcool: 6,5%
Avaliação: ****