15 abril, 2006

Carta Blanca || Um devaneio mexicano

A Fiesta de los Muertos, se se vive ou se passa em Oaxaca, merece ser recordada. Oaxaca, no sul do México, é uma cidade dominada pelas suas duas imponentes necrópoles mixtecas, Monte Albán e Mitla – e pelo mezcal. Há quem ignore os dados arqueológicos e se lembre apenas do mezcal (uma das marcas é, justamente, Monte Albán) e da «Canción Mixteca» que viria a ser popularizada por Ry Cooder mas que deve ouvir-se no zócalo (praça) de Oaxaca, entre jacarandás, tílias, esplanadas, pratinhos de «sopes» e «chapulines refritos» (se conseguir provar isto, os «chapulines», e ignorar do que se trata, os meus parabéns – a tradução pode procurá-la depois, para não se impressionar agora) mariachis que aparecem a interpretar as canções mais tristes do mundo. Muito bem: eu lembro-me também por causa da Carta Blanca, uma cerveja claríssima, como o nome indica, fresquíssima, aberta, indicada para o clima. As borboletas de que falam todos os grandes poetas de Oaxaca (a cidade das igrejas, do barroco e do álcool) esvoaçam ainda em redor da minha lembrança da Carta Blanca: um líquido quase transparente que nos devolve grande parte dos sonhos que é habitual desprenderem-se das duas filas de instrumentistas de um conjunto de mariachis (sem contar com o cantor, que já deve estar – tradicionalmente – em adiantado estado de embriaguês, cantando sobre amores perdidos e sobre mulheres malvadas). Bebi-a ao som de uma orquestra de marimbas que interpretava canções dolentes e patrióticas, naquela tarde mansa e tépida de uma das mais belas cidades do sul do México. Tílias espantosas albergaram-me o torpor e protegeram-me do ruído dos pássaros, que me fez espécie quando pedi a segunda e, depois, a quarta e a quinta, passando sobre a terceira sem dar notícias. Eu, se fosse a si, provava-a. À cerveja, bem entendido.

+MARCA: Carta Blanca
Origem: México
Álcool: 4,5
Avaliação: ****