15 abril, 2006

Belikin || O Belize, ponto final

Se julgam que basta falar – estão enganados. Não é fácil chegar ao Belize, um enclave sitiado por todos os lados: o México a norte, a Guatemala a ocidente, as Honduras a sul e o mar a leste. É profundamente injusto, sobretudo, estar sitiado a leste pelo mar mais azul da região, tépido e cheio de ilhas com coqueiros e recifes de coral. O Eterno se encarregará de recompensar o Belize (independente desde 1980 – era então as Honduras Britânicas) pelos padecimentos que sofreu: por causa daquele mar, do clima ameno, do reggae sereno da sua música, e da paisagem que inspirou (ainda que brevemente) Graham Greene ou Aldous Huxley. Não é coisa que se deseje a alguém – ainda por cima ter inspirado escritores como Greene e Huxley. Que sofrimento. Que vergonha. Logo escritores assim. Foi no Belize que conheci Wolfram Köehler, um alemão de ascendência universal (ou seja, de vários países) que, aos trinta e oito anos, depois de vaguear pela França e pelo seu país natal, por Inglaterra e pelo Brasil, aceitou uma proposta da Belikin para tornar-se seu mestre cervejeiro (profissão que já era a do seu pai, um sereno e bom bávaro). Chegou ao Belize e encontrou a Belikin ultrapassada. Melhorou-a, remoçou-a, reinventou-a. É uma cerveja que dá gosto provar. Bebi algumas Belikin com o próprio Wolfram, no bar do Bellevue Hotel, em Belize City, a um balcão onde se encontravam personagens de Somerset Maugham que tinham vindo dos quatro cantos do mundo, cheios de amores, fugas, dívidas e brandy com soda. O Bellevue já não existe, mas lembro que nós bebíamos as Belikin com a sobriedade de quem acha os trópicos uma coisa de nada: é uma cerveja fresca e de malte rescendendo a verde, que Wolfram tentou aproximar das pilsener alemãs; não conseguiu – o Belize atordoa. Essa mistura é exótica, sim, mas muito admirável. Bebe-se sem deixar prova.
Hoje, Wolfram (que acompanha as notícias sobre o campeonato português de futebol, o que acho uma excentricidade admirável) vive em New Orleans, onde tem um bar onde se pode beber cerveja (lager e stout) que ele próprio fabrica, e em quantidades honestas que impedem a massificação e a divulgação – e, como ainda não casou, vai ao Belize duas vezes por ano conferir se a Belikin continua no bom trilho. Ainda não se queixou.

+MARCA: Belikin
Origem: Belize
Álcool: 5,5%
Avaliação: **