15 abril, 2006

Murphy’s Irish Red || Festa crepuscular

As ruivas fazem parte da minha história pessoal. Há ruivas históricas no cinema e na literatura. Raymond Chandler encontrava sempre maneira de desenhar uma ruiva conflituosa para se atravessar no caminho de Philip Marlowe, e o cinema – oh, cinéfilos!! – está cheio de pecado à volta daqueles cabelos estonteantes, cheios de tentações varietais: a ruiva pecaminosa, a ruiva desvairada, a ruiva turbulenta, a ruiva obsessiva que atravessa os palcos (da nossa vida) semeando tempestades. Não sei se é mesmo assim: conheci ruivas angélicas. Claro que detectei, atrás daquele olhar tranquilo, a necessidade de pecado absoluto, uma deliciosa ventania feita de música e de amargo-doce. O amargo-doce é o que resulta das primeiras degustações da Murphy’s Irish Red, uma das minhas cervejas irlandesas preferidas. Devo avisar que o mais fascinante na Murphy’s Irish Red é a cor: aquele tom vermelho é bem apresentado, requer rigor e trabalho, alguma moderação na paleta à disposição do mestre cervejeiro e nos maltes tostados logo na primeira fase. Essa suavidade alberga, no entanto, um tom amargo (bitterness) que lhe empresta algum carácter. Não propriamente graciosidade. Há cervejas que não andam pelo mundo à procura de graciosidade e, se querem que lhes diga, ainda não encontrei graciosidade nas gigs irlandesas dançadas em soalho de madeira: há o som dos sapatos batendo no chão, os olhares de sedução e de desafio, os cabelos em desalinho no final da canção onde tem de haver rabecas (fidles), bodhram, e até, para desgosto dos meus amigos, a gaita irlandesa que todos aprendemos a ouvir com Paddy Molloney. Seja como for, isto é um aviso: não procurem esta ruiva para estabelecer uma relação delicodoce. Nada: amargo-doce, uma ligeiríssima ameaça de caramelo – mas essencialmente serve para beber e não para promessas de romance. Há coisas assim.

+MARCA: Murphy’s Irish Red
Origem: Irlanda
Álcool: 5%
Avaliação: ***