15 abril, 2006

Delirium Tremens || Delírio, tremendo

Um amigo sugeria, um dia destes, que tinha saudades. Nada pior do que dois portugueses, reunidos diante de duas cervejas, murmurando que têm saudades: atrás dessa confissão vêm mais duas ou três, nunca pela ordem requerida, e a noite acaba ou em choro ou em indignação. Na melhor das hipóteses, cada um vai para sua casa; mas há consequências piores: funda-se um partido, escreve-se um soneto, abre-se um blog, critica-se a pátria (coitada, tão arrumada, quieta, perdida) ou recita-se Álvaro de Campos: os versos «se eu casasse com a filha da minha lavadeira/ talvez fosse feliz» transformam-se em «se eu tivesse casado com a filha da minha lavadeira/ talvez fosse feliz». Misérias. Todos temos uma delas no currículo.
Mas não se tratava de nada disso. Com a idade, nem há choro nem se dá grande valor à indignação – há bastante de ambas as coisas por aí. Afinal, o meu amigo tinha, dizia, «saudades de uma tábua de queijos e de um bom vinho» (ele tinha vivido «na Europa»). Alguém murmurou qualquer coisa sobre a infinita qualidade dos nossos queijos, mas a coisa terminou aí. Ele queria um boursin, queria o aroma fétido dos queijos franceses ou um pedacinho de Apfenzeller, um pivete transcendental. Nada a fazer. Nenhuma menção ao Serpa o satisfez. Ao Serra, ao da Gardunha (oloroso e denso), ao de ovelha churra de Moncorvo (pintalgado de colorau, metafísico), ao de Sousel (másculo e pedindo pãozinho de forno de lenha). Nada. Olhei para o lado e salvei-me no meio de tamanha procissão de lamentos: uma Delirium Tremens, nome mais do que indicado para afagar aquela aspereza melancólica. Pedi duas e resolveu-se o assunto. Seca, de maltes tostados, um sabor acentuado de cereais, tripla fermentação – a Bélgica estava ali presente, naquela garrafinha vinda da brasserie familiar que desde 1854 tem por função acalmar estados de alma e espíritos deprimidos. A Delirium é, como o nome indica, uma cerveja que «bate bem». Ou seja: bate forte. Digamos que bate, não sei se me entendem. Bate; pronto. O seu álcool (9%) não é pura ficção. Ainda pensei em pedir mais duas; não aguento gente com saudades.

+MARCA: Delirium Tremens
Origem: Bélgica
Álcool: 9
Avaliação: ****