Cooper’s (Dark Ale) || O mar austral
Já vos falei da sparkling ale australiana – uma Cooper’s de eleição, fácil de encontrar no nosso mercado europeu. Azares da literatura: tenho ocupado parte das últimas semanas a discretear, ao fim da tarde, sobre romances da Austrália e sobre a obra de Peter Carey, o de Oscar & Lucinda. Nem todos são bons (os romances), como acontece em tudo, mas, em muitos dos enredos passados no final do século XIX, nota-se a perigosa e fatal ameaça do puritanismo religioso, que ameaçou a Austrália, como nos ameaça a todos nós, se estivermos distraídos. «Não cedais ao pecado, às tentações e à bebida», pregava um reverendo escocês nas ruas Adelaide, distinguindo com uma clareza titubeante, mas meridiana, aquilo que é pecado, tentação – e bebida. Ele sabia do que falava: um dos principais produtores de ale na terra austral era justamente um simpático presbiteriano. A ele devemos, gente civilizada da Austrália e do resto do mundo, o hábito de manter a dupla fermentação da cerveja (primeiro no casco de madeira, depois na própria garrafa) – método que a Cooper’s segue na Sparkling ale e mantém na Dark Ale. Esta última não tem nada de sparkling, no entanto: em vez disso, o seu tom escuro e o aspecto cremoso e aveludado do seu líquido lembra o uso de maltes especialmente tostados e ligeiramente tocados pelo chocolate ou pelo caramelo, mesmo que estes nunca tenham aparecido nas terras austrais. A espuma da Dark Ale lembra a princípio as stout mais leves do mercado europeu, acrescentando a essa recordação um sabor final próximo do café, o que faz dela uma cerveja exótica, totalmente inadequada para palatos convencidos de que o mundo termina, para todos os efeitos, no estreito de Gibraltar. Não é verdade: o mar prolonga-o até à Austrália, pelo menos. Depois disso, não sei. Sonho várias vezes com essa imagem depois de ter visto, do avião, o grande recife de coral: sentado à beira do mar austral, com uma cestinha de Dark Ale à mão e um romance, digamos, encorpado, para fazer de almofada. E é assim. O meu amigo Luís Cardoso, num dos seus romances timorenses, analisa isto de outra perspectiva: ao ver o grande recife de coral pensa na existência de Deus. Eu, como tenho isso arrumado, vou à janela do avião e penso na Cooper’s.+MARCA: Cooper’s (Dark Ale)
Origem: Austrália
Álcool: 4,8
Avaliação: ****

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