15 abril, 2006

Chimay (Branca) || O cisma do ocidente

Cerejas brancas – lembram-se? Na minha infância havia cerejas brancas deliciosas, carnudas, exóticas. Com o aquecimento global, o El Niño e outros fenómenos que me escuso a explicar nesta crónica de cervejas, desapareceram as cerejas brancas. Elas sobrevivem – mas são apenas um fenómeno. A publicidade e a banalização dos mercados encarregaram-se de negar a sua existência com o argumento de que as cerejas são todas assim, vermelhas, boas para fazer iogurte e para peregrinarmos ao Fundão e a Alfândega da Fé (dois dos lugares que ainda levantam bem alto o pendão da nossa cereja nacional). Esqueçamos, pois, as delongas literárias. Ora, a Chimay branca é um desses casos, ao nível das nossas cerejas brancas, evocadas em segredo, em tertúlia de saudosistas e de gente que ainda sabe recitar Camilo Pessanha sem pestanejar ao fim de duas estrofes. Belga, sim; mas mais rara do que as suas congéneres de rótulo escuro, a Chimay branca não deixa de ser uma trippel, saborosamente fermentada e favorecida pelo mercado que, banalizando as suas irmãs morenas e ruivas, a deixa mais disponível para ser provada em condições, rescendendo a trigo e deixando na boca um travo simplesmente amargo e sem direito a compensação. É amarga e pronto; não faz concessões ao arbítrio populista que manda existir expressões como «sweet & sour», «bitter» ou «deliciosamente fresca». O leitor pensa que se trata de ninharias? Desengane-se. Já vão sendo poucas as cervejas que se estão nas tintas – há excepções aqui e ali, nas pequenas cervejarias inglesas ou californianas, artesanais, para iniciados e conhecedores. Se quer provar uma das últimas belgas com carácter (honi soit, evidentemente…), aqui tem uma oportunidade: não se queixa, não faz exigências em nome do «gosto dominante» (uma desgraça que transformou quase todas as cervejas na mesma mistura), nem se finge de moderna. É assim mesmo. Quem não gosta passa à frente. Mas sorri com gosto da falta de conhecimentos do bebedor. Para beber a Chimay é necessário aprender alguns rudimentos: estar possuído do demónio da sede é uma das condições; depois, ter tempo para que ela se demore na boca, em explosões de alegria; finalmente, esquecer as banalidades que se dizem sobre cerveja. Está tudo dito.

+MARCA: Chimay (Branca)
Origem: Bélgica
Álcool: 7,8
Avaliação: ****