15 abril, 2006

Artevelde || Temperamento e temperatura

Não se deve provar uma cerveja sem luz à volta. Sobretudo se se trata de uma ale com tons de âmbar, ligeiramente escurecida: é preciso olhá-la, ver como se exprime no copo, como se comporta ao primeiro movimento. A Artevelde Grand Cru, da velha cervejaria Huyghe (ah, flamengos de 1654!, deve escrever-se Brouwerij Huyghe, mas não sei como se pronuncia ao certo), é um dos exemplos clássicos para o bebedor esquecido que no dia seguinte não se lembra da cor. Acontece. E a apreciação diverge: ou se trata de uma amber ale, directamente inspirada nas inglesas, ora tem um tom de rubi que já se afasta da designação tradicional. Isto explica-se facilmente porque a Artevelde Grand Cru é, antes de mais, uma cerveja muito temperamental. O primeiro toque soube a romã, a frutos doces e ligeiramente primaveris. Seria a cerveja desta Primavera, se a Primavera fosse – evidentemente – só este fim-de-semana. O segundo momento fez recordar alguns vinhos, com um aroma subtil a desprender-se no momento em que nos damos conta de que é um pouco adstringente. Finalmente, com os olhos ainda despertos, apreciamos a sua cor (confesso que ainda não percebi qual era), a frescura da prova e a temperatura que provoca à medida que vai descendo, arrefecendo o corpo.
Há quem diga que uma cerveja deve refrescar. Nem tanto. Uma cerveja deve, também, iluminar, entreter os olhos, servir para pensar em como era bela a pintura flamenga e como tudo se desvanece em momentos – a beleza pura leva-se à boca e deixa-nos tontos, perseguidos pela paisagem. Parece um daqueles quadros campestres, mas não é. Poesia pura, Artevelde.

+MARCA: Artevelde
Origem: Bélgica
Álcool: 7,3
Avaliação: ***