Aecht Schlenkerla || Memórias alemãs

Para quem gosta de uma lager com o seu carácter explosivo, ligeiramente sparkling, com espuma mediana mas alvíssima relembrando um grande recife de coral, proponho hoje o seu inverso. Ou o reverso, ainda não decidi. O nome Aecht Schlenkerla Rauchbier Urbock pode não querer dizer nada a princípio, sobretudo se acrescentarmos coisas como «malte exageradamente seco», por exemplo. Portanto, trata-se de pôr a coisa em copos limpos: «cerveja fumada», uma variante bávara, produzida em Bamberg, onde fica a histórica Schlenkerla, uma cervejaria notável. Provei a rauchbier durante um tour literário, há coisa de dois anos, e depois de uma viagem de comboio, ao longo do Reno, cheia de comentários sobre o mito de Lorelei; eu bem queria recitar Schiller, evocar Goethe – mas fiquei-me pela canção homónima dos The Pogues, pensando que a Lorelei dos irlandeses era a mesma. Provei-a, digo, longe da Baviera, ouvindo as mesmas corujas que Hegel escutava em Heidelberg, mas distraído pelas estudantes de literatura que iam de bicicleta para a universidade. Mas uns dias depois lá estava, saindo de Munique em busca da Schlenkerla, como um turista. O caso é que a rauchbier, ou cerveja fumada, tem uma vasta tradição que nasce da necessidade de secar mais rapidamente o malte em fogo intenso, o que lhe dava um sabor particular. O processo é hoje mais sofisticado e já não se acendem fogueiras com lenha húmida – mas a ideia permanece.
A Schlenkerla Rauchbier deve beber-se ligeiramente fresca, mas sem aquele olhar desiludido que acontece quando a espuma se desvanece num lago turvo (na cervejaria original serve-se a cerveja a partir de uma caneca de litro e meio a consumir com a tranquilidade de um bávaro preguiçoso) – é sublime quando acompanha refeições e salgados. Devem abster-se, naturalmente, os bebedores que pensam que o único objectivo da cerveja é afastar o calor do Verão.
+MARCA: Aecht Schlenkerla
Origem: Alemanha
Álcool: 6,5%
Avaliação: ****

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