Para não morrer de sede no Inferno
A vida não é simples e até para beber cerveja é necessário algum esforço, precisamente porque não há prazer verdadeiro sem o prazer de compreendê-lo. Não foi para isso – para grandes explicações – que escrevi estes textos. Se o leitor quer, realmente, saber mais de cervejas, deve consultar um especialista. Eu sou apenas um bebedor de cerveja; podia escrever sobre a sua história milenar, a herança dos sumérios e dos incas, dos egípcios e dos belgas – mas confesso que não diria nada de original. Estas coisas repetem-se muito, como se sabe. A cerveja, como dizem os seus detractores, é só cerveja. Ou seja: é a cerveja e a sua circunstância. Beber é um acto convivial, de sociedade, amigável, literário até. Repetimos, ao elevar os nossos copos, gestos de uma tradição: a do riso, da conversa, da troca de frases, da comunhão. Não tem grande metafísica. Não tem grande dificuldade.
Por isso, estas notas, que pretendem funcionar como o meu guia de cervejas para o ano de 2006, ressentem-se desse espírito vadio e flutuante, como a poeira dos bares, as frases suspensas a meio de uma conversa. Para falar das qualidades de uma cerveja seria também necessário falar do mundo que ele evoca. Estas são apenas cem cervejas escolhidas de entre milhares. A maior parte delas estão disponíveis em bares e supermercados portugueses, e os seus preços são, ainda, razoáveis.

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