Rochefort Trappistes 10 || Trapistas, um regresso
De entre as cervejas trapistas que ainda se encontram disponíveis para bebedores (Achel, Chimay, Orval, Westmalle, Westvleteren…), a tradição beneditina deixou-nos uma pequena glória: a Rochefort. Os seus 11,3% de álcool provêm de uma fermentação em quatro sereníssimas fases e de um conjunto de factores praticamente esotéricos. Por alguma razão tudo se perde no interior da abadia (aliás, da Brasserie Rochefort, diante dos telhados e dos musgos da abadia), que produz mais duas cervejas: uma dubbel e uma strong ale, conhecidas, respectivamente, por Rochefort Trappistes 6 (de 7,5% de álcool), e Rochefort Trappistes 8 (de 9,3%). Gulosos e ambiciosos, coube-nos a 10, soma incomparável de cor (escura, profunda, negra como os túneis onde ela se guardava, fermentando, enquanto os monges oravam, suponho), aroma (tons de ervas boas para licor, um nadinha de chocolate, um tanto de frutos maduros, entre a ameixa e a maçã madura) e sabor sofisticado (além da madeira de carvalho, há uma nota profundíssima de baunilha ou caramelo volteando, como a poeira nos bosques). Assim se perde o olfacto, assim degeneram as papilas. Cuidado ao bebê-la: não tenha em atenção apenas a percentagem de álcool escondida sob o modesto e austero rótulo que distingue a garrafinha; há mais. Sugiro que se beba apenas em companhia de um queijo, salgado e fedorento, cheio de sabor, e de um pão escuro, tradicional. A Rochefort Trappistes 10 é, por outro lado, uma afronta aos radicais da saúde. Não porque ela faça mal; longe disso. Mas porque a sua existência nos assegura que a História continua e que há muitas coisas saborosas debaixo do céu – e não podemos perdê-las. Há outra coisa importante a dizer sobre a Rochefort: só deve beber-se depois de se considerar que a cerveja pode ser uma obra de arte. Uma gota desta cerveja é, à sua medida, um brinco de pérola num quadro raro e difícil de apreciar.+MARCA: Rochefort Trappistes 10
Origem: Bélgica
Álcool: 11,3%
Avaliação: *****

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